Monday, May 27, 2019

Manfredo - Lord Byron

Ligações anteriores... 


Foi o livro Daisy Miller de Henry James o responsável pela leitura de Manfredo de Lord Byron. 

Lord Byron já figurava na nossa "lista de livros a serem lidos" com outros títulos , mas Manfredo é o primeiro livro do  autor a ser lido no Linked Books, o que se deveu essencialmente a existir esta maravilhosa edição bilingue, publicada pela Relógio D'Água editores

Antes de Manfredo de Lord Byron ter surgido na nossa lista, apenas tinha encontrado edições em inglês das outras obras de Byron que até agora haviam surgido mencionadas. Confesso que partir para a leitura de Byron em inglês me trazia alguma insegurança, mas esta edição bilingue deu-me a confiança necessária para começar a descobri-lo.

"Conheço" então a escrita de Byron pela primeira vez através  deste poema dramático, dito "de armário" , uma designação nova que descobri com este livro. Um drama de armário significa que se trata de um texto escrito como peça de teatro mas cuja finalidade não é a de ser representado em palco. A finalidade dos "dramas de armário" é a de ser lido por um leitor, individualmente ou ser lido em voz alta mas para um grupo muito restrito de ouvintes. 

Esta foi uma curiosidade que aumentou o meu interesse nesta leitura, mas à volta deste livro existem outras igualmente interessantes. Manfredo terá sido a primeira obra que Byron escreveu após o seu exílio auto-imposto. Byron terá decidido abandonar Inglaterra e exilar-se na Suiça, após um escândalo sexual que o envolvia com a sua meia-irmã Augusta Leigh, casada com o coronel George Leigh (tive pela primeira vez conhecimento deste caso por referências no livro de Ruth Rendell, Sentença em Pedra, também lido aqui para o blogue). Diz-se deste livro que é quase uma "confissão" de Byron, que retrata o que ele sentiu por ter sido forçado a abandonar a irmã e este amor proibido.
Para além disso, foi nesta casa na Suiça que os famosos "serões de escrita" decorreram e onde terá tido origem o maravilhoso "Frankenstein" de Mary Shelley.

Com todos estes factores de interesse à volta do livro e com esta edição bilingue maravilhosa da Relógio D'Água (gentilmente oferecido pela editora), foi-me impossível refrear o forte entusiasmo que precedeu esta minha leitura.


Opinião....


Gostei tanto deste livro...! 
Um livro essencialmente sobre dor, angústia e desespero. Não me recordo de ter lido um livro tão pungente e sofredor que fosse ao mesmo tempo tão belo e elegante. A poesia de Byron enlevou-me, fazendo-me sentir, de forma exponencial, a lancinante perdição de Manfred. 

Manfred é um homem condenado pela sua própria consciência e por um sentimento assombroso de culpa, mas...como fugir desta dor?... como fugir de si próprio?

Os segredos e dons de Conde Manfredo, bem como sua índole, natureza e carácter vão sendo postos à prova, enquanto assistimos a inglórios esforços de mitigação da dor. Não sendo apenas um homem do mundo terreno, no seu desespero recorre também "ao outro mundo", esgotando todas as vias em que a mais ínfima das esperanças se afigura possivel.

Gostaria no entanto de ter visto esta história mais desenvolvida. Os três actos que compõem a peça revelaram-se insuficientes, deixando-me no final um pouco "pendurada"... Gostaria de ter ficado a saber mais sobre o conde e esse seu horrífico passado. Mas se encararmos este texto de acordo com o que se suspeita, como uma confissão autobiográfica sobre o amor proibido pela meia-irmã e os eventos que escandalizaram a sociedade inglesa, talvez se obtenha, ainda que parcialmente, um motivo para esta não revelação, e seja mais fácil ao leitor encontrar as respostas que o autor lhe negou.

Pessoalmente e após alguma pesquisa sobre esse tema, tendo a concordar com essa suspeita. Em especial por conta da seguinte passagem:

I say ’tis blood—my blood! the pure warm stream
Which ran in the veins of my fathers, and in ours
When we were in our youth, and had one heart,  
And loved each other as we should not love,
And this was shed: but still it rises up,
Colouring the clouds, that shut me out from heaven,
Where thou art not—and I shall never be.

Peca também um pouco pela exaustão dos elementos metafísicos apresentados. Gostaria que existisse um maior equilíbrio e divisão do texto entre o que ocorre na "realidade terrena" e o que ocorre "na (ir)realidade metafísica".

Mas a verdade é que senti físicamente a dor de Manfredo, um aperto no estômago e no peito, angústia e tristeza. Não posso pois deixar de vos aconselhar um livro que teve esse poder sobre mim. Não foi uma experiência de leitura agradável,no vulgar sentido da palavra, mas foi, agradavelmente memorável. 


Aproveito para vos deixar aqui o video que fiz para o canal do LinkedBooks sobre ele.


Leitura recomendada para quem gostou de Fausto de Goethe!


Linked Books....


Guilherme Tell - Friedrich Schiller

Hamlet - William Shakespeare - a seguinte citação de Hamlet é a frase introdutória a Manfredo: "Há no céu e na terra mais coisas, Horácio, do que na tua filosofia se imagina"
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Na introdução/apresentação que precede a obra, intitulada "Manfredo, Mito Romântico", João Almeida Flôr menciona diversos autores e obras. Considerei, enquanto ligações a este livro apenas quando autores e respectivas obras foram especificadas, nomeadamente:

Frankenstein - Mary Shelly

Prometheus Unbound - Percy Shelly

Prometeu Agrilhoado - Ésquilo

Fausto - Johann Wolfgang Goethe

Werther  - Johann Wolfgang Goethe

Local mencionado...


Montanha Jungfrau
(Suíça)