Monday, November 24, 2014

Filoctetes - Sófocles

Linked by...
Foi a partir de uma outra obra deste autor, que chegamos à leitura de "Filoctetes" de Sófocles. No exemplar de "Rei Édipo" que lemos anteriormente neste blogue, a nota biográfica do autor mencionava várias das suas obras. "Filoctetes" foi o título que escolhemos entre as várias referências, por termos encontrado uma edição disponível em português na Wook.

No entanto, foi na Feira da Ladra, no passado mês de Outubro, que acabei por adquirir o exemplar na foto, que agrega várias das suas obras, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", e onde "Filoctetes" está também incluído.

Esta é já a quarta deste autor, lida no âmbito do Linked Books. Como poderão confirmar ao ler os posts anteriores, todas elas foram muito do meu agrado, e já aqui tenho mencionado como o Linked Books veio despertar em mim uma autêntica paixão por estes clássicos.

Os títulos já lidos de Sófocles foram até ao momento:
Dadas estas minhas anteriores experiências de leitura, antecipei desde cedo que esta seria mais uma experiência memorável, e é sempre com grande entusiasmo, que vejo surgir estes clássicos na nossa lista de livros a serem lidos.

Nota: posteriormente este título ficou também "linkado" a:
Linked synopsis...

"Nesta peça, a mestria dramática de Sófocles reúne três figuras que encarnam questões morais, sociais e educativas – Filoctetes, Ulisses e Neoptólemo; confronto entre os dois primeiros, tentando cada qual aliciar para a sua esfera de influência o terceiro."


fonte: wook.pt

"Filoctetes é uma obra-prima da maturidade de Sófocles, uma tragédia da última década do século V que põe em causa a própria tragédia, a mais moderna de todas as peças gregas na sua austeridade, no seu despojamento, na confiança absoluta na Palavra. A peça que na opinião de mais de um helenista já foi considerada a mais subtil, a mais perfeita e mais comovente de todas as que até nós chegaram do teatro grego."
fonte: wook.pt
Linked opinion...
Mais uma tragédia magnífica de Sófocles. É impossível não sentir como privilégio, o facto de esta obra ter chegado até aos dias de hoje. Segundo o que pesquisei, foram apenas sete os textos que "sobreviveram" de entre as mais de 125 obras do autor. Esta foi a quarta que li, e foi a quarta que adorei.

No entanto, momentos após terminá-la, senti que esta tragédia não era bem como as anteriores, mas não consegui identificar de imediato por que motivo isso tinha acontecido. Na altura, lembro-me de pensar que a história parecia incompleta. Apesar de ter um princípio e um fim bem definidos, era como se se tratasse de uma sub-história, dentro de uma narrativa maior, como se fosse um capítulo de um livro, ou um dos livros de uma trilogia, tão frequentes na época. A minha pesquisa levou-me a concluir que não há nada que indicie que esta obra seja parte de qualquer outra, pelo que foi necessário reflectir melhor sobre o que tinha lido, e sobre o porquê desta sensação de "diferença" em relação ao que já tinha lido do autor.

Foi só após alguma reflexão que chego às seguintes hipóteses explicativas sobre esta "diferença" por mim sentida:
  • Esta tragédia não contém os "ingredientes" usuais das tragédias de Sófocles anteriormente lidas. É uma narrativa de natureza mais subtil, sem os acontecimentos "fortes" e "trágicos", que "abalam" o leitor.
  • O texto termina, pelo uso do artifício Deus Ex Machina, ou seja, pela intervenção de um Deus, neste caso o semideus Héracles, que irá ditar a conclusão da história. Apesar de ser de enorme interesse literário a utilização deste artifício nos dramas, não posso dizer que me agrade muito quando as histórias terminam desta forma. E neste caso específico, não me parece que fosse forçosamente necessária esta intervenção divina no final.
Não sei se estas minhas duas constatações são suficientes para identificar a "diferença" nesta tragédia, mas devo dizer que ser diferente não foi neste caso algo mau. Esta história é realmente diferente, mais subtil, menos completa, com um final não surpreendente, mas não deixa de ser formidável, e belíssimamente bem contada. Acho sempre extraordinário quando este autores promovem a reflexão sobre temas tão complexos com uma aparente parcimónia de escrita e de enredos.
Basicamente, está um homem abandonado numa ilha, doente (Filoctetes), que é possuidor de uma arma dos deuses (um arco, de Héracles), que Ulisses necessita para conseguir tomar Tróia. Para tal faz-se acompanhar de Neoptólemo, filho de Aquiles, para conseguir ganhar a sua simpatia e confiança. Mas para melhor falar deste enredo, gostaria de o fazer a partir dos seus três personagens principais.

Ulisses é um deles. Um personagem meu "conhecido" da Odisseia, apresenta-se aqui de uma forma um pouco diferente da sua típica imagem de "herói". Ele que foi um dos responsáveis pelo abandono de Filoctetes naquela ilha, por já não poderem suportar os lamentos de dor do doente, nem o cheiro nauseabundo da sua ferida, volta agora para tentar convencê-lo a entregar-lhe o arco de Héracles. Para tal, tenta convencer Neoptólemo a ajudá-lo, uma vez que este é filho de um amigo de Filoctetes (Aquiles). Mas este "serviço" que Ulisses pede a Neoptólemo, não é de natureza nobre, antes pelo contrário. Ulisses deseja que ele engane Filoctetes, por forma a que este entregue o seu arco invencível. É pois, um Ulisses ardiloso que nos surge neste tragédia, convencido (e não há quem o demova desta convicção) de que os meios justificam os fins. Este é o primeiro motivo para reflexão que Sófocles nos concede no seu texto.

Filoctetes, o homem abandonado naquela ilha, vive em grande dor e agonia. Sofre um mal no seu pé, por antigo perjúrio cometido ao revelar o local onde repousavam as cinzas de Héracles. A dor do abandono pelos companheiros concorre com a dor física do mal incurável e quase insuportável. Jurou-se inimigo mortal daqueles que o haviam enganado, e por nada entregaria o seu arco àqueles que o traíram. O relato do sofrimento deste homem é um dos pontos altos desta tragédia, e mais um motivo para reflexão.

Neoptólemo encarna a questão central deste enredo. Dividido entre duas posições irredutíveis, a de Ulisses e a de Filoctetes, não tem uma tarefa fácil. Entre enganar alguém que mereceu a amizade de seu pai, e retirar a esse homem já em grande sofrimento o seu único bem ( o arco ) , a fim de que Tróia seja finalmente tomada, ou recusar-se a prestar esse "serviço" a Ulisses, e tornar-se ele próprio um traidor. Com pouca margem de manobra, este jovem vê-se assim perante este grave dilema, e seja qual for a sua decisão, acarretará para si próprio graves consequências, as quais terá que enfrentar. Se os outros pontos de reflexão não tivessem tocado o leitor, aqui sem dúvida quem lê é obrigado a reflectir sobre este dilema que aflige um dos seus principais personagens.

Resumindo, apesar de um pouco diferente do que já havia lido do autor, é uma tragédia excelente, e mais uma vez recomendo este livro, à imagem do que aconteceu com as suas outras obras.

Linked opinions by other bloggers...
Linked books...

A Ilíada - Homero (obra mencionada no prefácio, e para além dessa referência, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo Pátroclo, Menelau, Nestor, Fénix, Ájax, Diómedes e Agamemnon)

A Odisseia  - Homero (obra mencionada no prefácio e nas notas, e para além dessas referências, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo, Menelau, Nestor, e Agamemnon)

Eneida - Virgílio (obra mencionada nas notas)

Este exemplar que lemos, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", não contém apenas a obra "Filoctetes" que neste post abordamos. Outros três títulos de Sófocles compõem este edição pelo que a ligação entre eles é inevitável:
Electra - Sófocles
Os Rastejadores - Sófocles

Linked places...
Ciros
(ilha grega no mar Egeu, pátria de Neoptólemo, um dos protagonistas desta tragédia)
Lemnos
(ilha grega onde decorre a acção desta tragédia)

Cefalénia
antigo thema (província civil-militar) bizantino localizado na Grécia ocidental e que abrangia as Ilhas Jónicas 
Pepareto
ilha do Mar Egeu, hoje conhecida por Escópelos (Grécia)
Eta
montanha da Tessália, no sul da Grécia Central
Esparta
antiga pólis da Gécia Antiga
Micenas
sítio arqueológico na Grécia
Linked rivers...
Rio Espérquio (Grécia)
Rio Pactolo (Turquia)
rio do antigo estado da Lídia
Linked greek gods and demigods...
Hermes
(deus olímpico, filho de Zeus e de Maia, deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens)
Atena
(conhecida também por Palas Atena, deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade)
Héracles
(semi-deus, filho de Zeus e Alcmena, herói dotado de grande força e sagacidade, tornado célebre sobre o nome de Hércules)
Asclépio
(deus da medicina e da cura)
Apolo
(deus olímpico, filho de Zeus e Leto, deus da divina distância, identificado como o sol, e a luz da verdade)
Hades
(deus do mundo inferior e dos mortos)
na imagem: Hades e Cérberus
Cibele
deusa mãe, simbolizava a fertilidade da natureza
(foi mencionada nas notas, e não no texto da tragédia)
Centauro Nesso(foi mencionado nas notas, e não no texto da tragédia)
na imagem: Héracles e Nesso
Linked mythological mortals...
Laertes, pai de Ulisses
(escultura onde estão ambos representados)

Peias
Rei da Melibeia, pai de Filoctetes (protagonista nesta tragédia)

nota: não conseguimos obter qualquer imagem de Peias
Sísifo
(filho do rei Éolo, da Tessália, e considerado o mais astuto de todos os mortais)
na imagem: "Sisyphus" do pintor italiano Titian
Teucro
(herói da mitologia grega, especializado no uso do arco)
na imagem: "Statue of Teucer" por Sir William Hamo Thornycroft
Térsites
combatente grego na Guerra de Tróia, anti-herói, feio, coxo, mentiroso, e imprudente com as palavras. Acabou por ser morto por Aquiles por dele ter zombado.
na imagem à esquerda com a tocha (pintura de Angelica Kauffman, datada de 1789)
Antíloco
filho de Nestor, acompanhou seu pai na Guerra de Tróia
Pátroclo e Menelau
Pátroclo era filho de Menécio, primo e por vezes considerado amante de Aquiles, combatente na Guerra de Tróia. Menelau foi um rei lendário da Lacedemónia, o rapto de sua mulher Helena, deu origem à Guerra de Tróia.
na imagem:  Menelau apoiando o corpo de 
Pátroclo
Nestor
 rei de Pilos, e argonauta 
Fénix
perceptor de Aquiles
na imagem: Fénix e Briseis
Ájax
frequentemente referido como Ájax, O Grande, foi um dos participantes na Guerra de Tróia
Diomedes
filho de Tideu, e um dos mais valentes herói da Guerra de Tróia
Agamémnone
distinto herói grego, e irmão de Menelau
na imagem: "The Mask of Agamemnon", decoberta em Micenas
Licomedes
Rei de Ciros, e avô de Neoptólemo (um dos protagonistas desta tragédia)

na imagem: Aquiles na corte do rei Licomedes
Linked looked up words...
crono - periodo de tempo que cada terreno levou a formar-se [geologia].
éneo - de bronze, feito de bronze; duro como o bronze [figurado].
ignífero - que traz fogo; que arroja fogo.
jucundo - que é agradável, aprazível; que demonstra alegria, jovialidade.
opróbrio - desonra pública; afronta muito grave; abjecção extrema.
outiva - faculdade de ouvir (audição, ouvido); acto de ouvir.
solércia - astúcia; habilidade para enganar; velhacaria; finura; esperteza.
tonante - que troveja; vibrante, forte [figurado]; epíteto dado a Júpiter [linguagem poética e mitologia].
transe - duelo, combate.

Wednesday, November 19, 2014

Fragmento - Inês Montenegro

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Este livro chega ao nosso blogue, enquanto link inicial, por sugestão de leitura na plataforma Goodreads. Foi Vítor Frazão o "responsável" por esta sugestão, a qual desde já lhe agradecemos.

Constitui-se assim enquanto "Link Inicial", não estando, pelo menos para já, "linkado" a qualquer outra obra lida neste blogue.

Não é o primeiro título que leio desta autora, mas é a primeira vez que o faço no âmbito do Linked Books. Tenho muito gosto em que uma obra sua nos tenha aqui chegado, uma vez que admiro bastante a sua escrita. Foi assim com muito prazer que iniciei esta leitura, antecipando, dada a minha experiência anterior a ler esta autora, um texto de excelente qualidade.

Este exemplar foi obtido no Smashwords, onde está disponível gratuitamente. Está também disponível para leitura no blogue Fantasy & Co.

Linked synopsis...

"Raquel observava a mulher no espelho. Movia-se quando ela se movia, imitava-a, mimicava-a… Mas não era Raquel. Raquel era Raquel e aquela mulher não era ela, era outra."
fonte: Goodreads

Linked opinions by other bloggers...

Infelizmente, não encontrei, no que respeita a blogues, posts opinativos sobre este conto. Tendo no entanto encontrado algumas opiniões "soltas", resolvi incluí-las aqui:

"Excelente escrita (como é habitual) e excelente história, com um pé no fantástico e outro no maravilhoso do quotidiano. O destino das personagens não surpreenderá dado à ambientação, mas os motivos talvez o façam (pelo menos ao leitor capaz de introspecção…)."
por Vítor Frazão, no Goodreads

"Um conto muito bom. Adorei a envolvência"
por Carina Portugal, no Fantasy & Co.

"Excelente conto, muito original, os meus parabéns. Só não o cotei com 5 estrelas por algumas palavras usadas que na minha humilde opinião empobreceram o texto. Mas não deixo de congratular a autora pelo mesmo, é desta garra e destas ideias inovadoras que a literatura Portuguesa precisa, força e mais uma vez parabéns."
por Adriano Nunes, no Goodreads

Linked opinion...
Um conto magnífico. Tal como esperava, trata-se de um texto que apresenta uma qualidade de escrita acima da média. Um pequeno conto, escrito de forma impecável, polida, que apresenta um ritmo e fluidez surpreendentes. Um exercício de escrita muito belo, que proporciona uma leitura agradável e envolvente.

Se bem que a qualidade de escrita não me surpreendeu, pois já havia lido outras obras da autora, o mesmo não se pode dizer em relação ao que é contado. No que concerne ao conteúdo deste conto, fui agradavelmente surpreendida com algumas facetas da autora que ainda não havia encontrado nas minhas anteriores leituras, como por exemplo, a sua extraordinária sensibilidade, e capacidade introspectiva.

É admirável a forma como a autora num conto tão breve, alcança uma profundidade que transcende o próprio texto. Em breves e belas palavras conta-nos o processo de reflexão da sua personagem principal sobre si mesma. O leitor é envolvido no íntimo caminho de auto-descoberta dessa personagem, e experiencia com ela os principais aspectos desse processo cognitivo e emocional, com todas as dúvidas e angústias associadas.

Desde a tenra idade, da constatação de si mesma enquanto "pessoa", da capacidade da criança se ver diferente do "outro", à formação da identidade dos anos adolescentes, somos levados a recordar os nossos próprios processos desenvolvimentais. A empatia é assim imediata, se o leitor assim o permitir, é claro.

Se bem que os artifícios utilizados para esta reflexão não sejam de todo originais, como o espelho, que me fez recordar o livro "Alice do Outro Lado do Espelho", ou o mito de Narciso, a forma magnífica como os utiliza faz esquecer o resto. É através deles, num jogo de inversos, que são lançadas as bases para uma profunda reflexão: o eu e o outro, o íntimo e o desconhecido, a proximidade e o afastamento, as quebras e a continuidade, o profundo e o supérfluo, a aceitação e o repúdio, o quente e o frio...

Resumindo, não posso recomendar mais. Para mais, estando disponível gratuitamente, não vejo nenhuma razão para o leitor não se lançar à descoberta desta jovem autora e da sua obra. Fiquei com vontade de ler mais, e espero que outros títulos seus surjam neste blogue.

Linked books...

Diabos Levem a Musa - Inês Montenegro (por ser da mesma autora, e por já se encontrar na nossa lista de livros a serem lidos, resolvemos considerar este título como "linkado" a esta nossa primeira leitura)

Wide Sargasso Sea - Jean Rhys (posteriormente a termos publicado este post, a autora informou-nos que se havia inspirado numa passagem deste livro, para escrever este conto.Por este motivo resolvemos incluí-lo nos seus "Linked Books")

Linked mythological figures...

Narciso
Linked flowers...

Narciso

Tuesday, November 18, 2014

Os Mistérios do Castelo de Udolfo - Ann Radcliffe

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Foram duas as obras que nos conduziram até aqui: Henry James mencionou este título no seu "Calafrio", e Jane Austen, em "O Mistério de Northanger". 

No livro de Jane Austen, este título foi também referido no prefácio por Gentil Marques. Diz que Jane Austen, através do diálogo dos seus personagens, demonstra o entusiasmo que "Os Mistérios de Udolfo" despertara no meio literário inglês. Recordo desse livro que os personagens discutiam sobre romances, e faziam uma espécie de "ranking" com os melhores, em que este fazia parte da lista. Recordo também que "Os Mistérios de Udolfo" era o livro que a personagem principal Catherine Morland lia no momento, e sobre o qual demonstrava muito favorável opinião.

Por tudo isto, foi com imensa curiosidade que iniciei esta leitura.

Este exemplar foi adquirido no site coisas.com no passado mês de Junho.

Linked synopsis...
"Os Mistérios de Udolfo foi publicado no verão de 1794 e é a quarta novela mais famosa da autora. A trama conta as aventura da jovem francesa Emily St. Aubert que sofre, entre outras calamidades, a morte de seu pai, terrores sobrenaturais em um sombrio castelo, e as maquinações de um bandido italiano. Após a morte do pai, Emily é encerrada no castelo Udolfo, nas mãos do Sr. Montoni, um criminoso italiano que se casou com sua tia, madame Cheron. O romance de Emily com Valancourt, jovem que conheceu em uma viagem para a suíça com seu pai, fica frustrado por Montoni e outros. Emily quer descobrir também uma explicação da misteriosa relação entre seu pai e a marquesa de Villeroi, um mistério que parece ter algo que ver com o castelo Udolfo."

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Tenho pena de não ter um qualquer artefacto, como por exemplo uns óculos especiais que me permitissem ler este livro com "olhos de séc. XVIII". Digo isto porque temo que a minha apreciação não irá fazer a devida justiça à obra, pois para além de não ter esse "filtro", não possuo conhecimentos literários suficientes para a enquadrar devidamente.

Gostaria, antes de expor a minha opinião sobre esta obra, de salientar o facto de que este título é um verdadeiro clássico da literatura inglesa. É um dos primeiros romances góticos, de uma autora pioneira e incontornável da literatura gótica.

Quanto à minha opinião, não posso afirmar não ter gostado, mas também não posso dizer que esta leitura me tenha entusiasmado. Apreciando a obra de uma forma global, posso dizer que ficou ali num meio termo, não se tendo revelado um mau livro, mas também não sendo um livro que vá recomendar aos amigos.

Esta obra tem alguns aspectos positivos que gostaria de salientar. Em primeiro lugar, a forma como está escrita, leva a que o leitor se prenda à leitura, e que dificilmente se aborreça. A acção é contínua, e havendo sempre "coisas" a acontecer, dificulta a tarefa de interromper a leitura. A autora é incrivelmente imaginativa, e criou uma trama cheia de acontecimentos. Infelizmente este aspecto positivo, acarreta também alguns negativos. Em minha opinião, fiquei com a sensação de que os acontecimentos acabam por ser em demasia, tornando-se até um pouco cansativo, pois apesar de a imaginação da autora ser prolífera, a sua criatividade (ao olhos de hoje, é claro), deixou um pouco a desejar. Muitas vezes o que acontece, é apenas "mais do mesmo". Os acontecimentos da história são tantos que quase chega a ser "mirabolante". 

Mas se a história chega a ser demasiado extravagante, no que respeita ao género de acontecimentos que caracterizam o romance gótico, no final o que me ficou quando recordo o que li, foi apenas uma história de amor, por sinal não muito interessante, e até um pouco banal.

No que respeita às personagens, a autora utiliza personagens simples e bem estereotipadas, que favorecem uma história que já se si é intrincada e não carece de maior complexidade dos seus protagonistas. Ainda assim, achei a personagem principal demasiado unidimensional. É a heroína perfeita, é certo, e típica dos romances de época, mas para mim é demasiado perfeita, tornando-a pouco credível.

Quanto ao estilo de escrita da autora, devo dizer que é um estilo simples, que facilita a leitura. Tive a sensação contudo, de que os recursos por ela utilizados eram limitados, uma vez que os repetia de modo óbvio, bem como algumas palavras.

No que respeita ao exemplar que adquiri, já aqui referi que gosto bastante destas edições antigas da Romano Torres. Têm-se tornado uma presença habitual no blogue, uma vez que muitas obras, como é o caso desta, só encontramos edição em português nesta colecção. No entanto, neste exemplar específico, deparei-me com um número de gralhas um pouco acima do aceitável, e em nada habitual nestas edições. É pois inevitável que a experiência de leitura seja afectada por estes pormenores.

Resumindo, não posso dizer que não tenha gostado, mas também não o consigo recomendar de uma forma global. Julgo que terá particular interesse para os amantes dos romances de época, e para os fãs de Jane Austen, já que a sua personagem Catherine Morland tão entusiasmada ficou com esta obra. Também os apaixonados da literatura gótica, não deverão deixar incólume este título, um dos primeiros do género.

Linked opinion by other bloggers...

Linked books...
Mistério Siciliano - Ann Radcliffe (foi escolhido este título entre os vários que são mencionados na biografia da autora, por termos encontrado uma edição em português --- todos os títulos na biografia estavam  o idioma original, tendo sido este mencionado como "The Sicilian Romance"). 

Northanger Abbey - Jane Austen (apesar da ligação a que já nos referimos, este título foi também mencionado na biografia de Ann Radcliffe deste exemplar)

A Senhora Parkington - Louis Bromfield (da muita publicidade a livros nas últimas páginas deste exemplar, escolhemos este por ser o único livro aí publicitado com imagem de capa --- evidenciou-se assim dos demais e tornou-se para nós mais atractivo, sendo por isso o escolhido)

Duas Cidades, Um Amor - Charles Dickens (publicidade da editora, na contracapa do nosso exemplar)

Ossian - James Macpherson (esta obra foi citada: ver Linked citations em baixo)

O Caminho de Merlim - Jean-Louis Fetjaine (o feiticeiro Merlim foi referido, e este título foi o escolhido para representar essa referência, por já se encontrar na nossa estante de livros a serem lidos)

Linked citations...

"Harmoniosa, comovente como o murmúrio do Zéfiro aos ouvidos do caçador, quando este desperta do mais belo dos sonhos, durante o qual foi embalado pelo concerto dos espíritos das montanhas" -- Ossian

Linked places...
Toulouse 
(cidade francesa)
Gasconha
(região no sudoeste de França)
Guyenne
(antiga província do sudoeste francês)
Pirenéus
(cordilheira no sudoeste da Europa)
Golfo da Gasconha
(situado entre a costa norte de Espanha e a costa sudoeste de França)
Languedoc e Roussillon
(França)
Provença
(antigo condado  - França)
Beaujeu
(comuna francesa)
Arles
(comuna francesa)
Perpignan
(cidade e comuna francesa)
Veneza
(cidade italiana)

Delfinado
(antiga província de França)
Apeninos
(cordilheira italiana)
Milão
(comuna italiana)
Verona
(comuna italiana)
Toscânia
(região da Itália central)
Livorno
(comuna italiana)
Florença
(município italiano)
Pisa
(comuna italiana)
Marselha
(cidade francesa)
Narbonne
(cidade no sudoeste de França)
Golfo de Lyon
Linked rivers and canals...
Rio Garonne
Grande Canal
(Veneza, Itália)
Rio Brenta
Rio Pó
Rio Arno
Linked monuments...
Torre de Pisa
Linked people...
Poussin
(pintor francês)
Carlos Magno
(Imperador)
Linked saints and biblical figures...
São Pedro
São Jerónimo
Linked mythological figures...
Esculápio
Linked militaries and mercenaries...
Condottieri
Os Doze Pares
 Linked flora...
Faias
Abetos
Freixos
Choupos de Itália
Ciprestes
Pâmpanos
Jasmins
Linked looked up words...
alvitre - proposta; sugestão; lembrança; parecer.
doge - chefe das antigas repúblicas de Génova e Veneza.
fagueiras - que afagam, meigas; suaves; agradáveis; favoráveis.
mole - multidão numerosa e compacta.