Wednesday, December 24, 2014

A Dama Pé-de-Cabra - Alexandre Herculano

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Foi João Aguiar no seu livro "Diálogo das Compensadas" que ao mencionar a expressão "cousa mui escusada e indecente" me conduziu a este título. É a primeira vez que Alexandre Herculano surge no nosso blog.

Apesar de desconhecer este livro, tem no entanto um título bastante sugestivo, e esta pequena edição convida à leitura. Assim partimos para este texto com algum interesse, mas sem saber o que esperar.

Este exemplar foi adquirido atavés da Winking Books.

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"A Dama Pé-de-Cabra, conto que dá título ao livro, conta a história de um nobre senhor que, ao encontrar na serra uma dama, por ela se perde de amores; mas a dama não é quem parece ser e muito terá o nobre de sofrer em consequência das suas escolhas. Um conto misterioso, intrigante, marcante pelo tom com que é apresentado (quase como uma história contada em voz alta) e onde os elementos sobrenaturais são soberanos."
from: Goodreads

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Como atrás referi, quando iniciei esta leitura, não fazia ideia sobre o que esperar. O início foi algo atribulado, uma vez que o texto está escrito em português antigo, repleto de palavras cujo significado desconhecia. Como podem ver em baixo na rúbrica "Linked looked up words...", foram muitos os significados que tive que consultar, o que foi uma experiência um pouco estranha de início. Contudo, após alguma habituação, comecei a apreciar esta particularidade, pois apesar de tornar a minha leitura mais lenta e cuidada, transportou-me de facto para um imaginário de tempos antigos, levando-me a "sentir" a época da lenda contada. Assim, apesar de este aspecto ter levado a que a leitura do texto não fosse fácil e simples, confere-lhe algo de especial e diferente das leituras que ultimamente tenho realizado.

Quanto à história, é bastante simples. Trata-se de uma lenda, que joga com os temas clássicos do sagrado e do profano, sem nada de muito surpreendente, pelo menos, não para os tempos habituais. Acredito que quando foi escrita, possa ter despertado em muitos o interesse pelo fantástico, e pelas lendas e mitos do nosso país, mas apesar de ter sido uma leitura interessante, não foi uma história relevante ou marcante. Julgo mesmo que não irá permanecer na minha memória durante muito tempo.

Esta história é uma lenda popular, que data do séc. XI, e que Alexandre Herculano compilou no livro "Lendas e Narrativas" no século XIX. Considero esse trabalho do autor de grande valor e importância para a memória nacional. As crenças, lendas e mitos do foclore nacional, riquíssimas nos mais variados aspectos, foram assim impedidas de cair no esquecimento.

Penso que para os leitores que apreciem este tema e os autores clássicos portugueses, poderão encontrar aqui um texto de interesse. Pessoalmente, apesar de ter gostado desta história, não foi o suficiente para a recomendar aos leitores deste blogue, de uma forma geral. Não duvido contudo que haverá muitos leitores que poderão ter uma boa experiência de leitura com este título. No entanto, se a resolverem ler, aconselho a que escolham uma outra edição, já que esta é de muito fraca qualidade, e não favorece em nada a leitura.

Nota: a leitura desta lenda é recomendada pelo Plano Nacional de Leitura (leitura autónoma - 3º ciclo)

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Linked books...

A Abóboda - Alexandre Herculano (é inevitável esta ligação, uma vez que este título é parte integrante desta edição de "A Dama Pé de Cabra")

Lendas e Narrativas - Alexandre Herculano (uma vez que esta lenda foi por Alexandre Herculano compilada neste livro)

Linked saints and biblical figures...
São Tomé
Apóstolo Santiago
Linked places...
Toledo (Espanha)
Galiza (Espanha)
Linked kings...
Os Reis Godos
Linked prayers...
Confiteor Deo
Pater
Linked flora...
Roble
Linked animals...
Gerifalte
Onagro
Linked looked up words...
adarves - espaço estreito que corre ao longo do alto das muralhas para serviço das ameias; muralha.
adova - [antigo] instrumento de ferro para prender pelos tornozelos; [antigo] sala nas cadeias onde os presos passeavam e recebiam visitas.
agareno - descendente de Agar; muçulmano; ismaelita; árabe.
almácega - tanque que recebe a água da nora; [viticultura] casta de uva do Douro.
almenara - facho que se acendia nas torres e castelos para dar sinal ao longe; torre onde se acendia esse facho; torre de mesquita onde os fiéis são chamados à oração.
almuadem - [religião] pessoa que chama os muçulmanos à oração, geralmente da torre da mesquita.
arras - bens que o noivo assegura à noiva no caso de ela lhe sobreviver; sinal (dado em dinheiro para segurança de contrato); garantia, penhor.
ascuma - [antigo] lança arrojadiça.
avoengo - que se herdou dos avós; antepassado.
bucelário - em forma de pequena boca; [antigo] homem adjunto a uma família nobre, que o sustentava, a troca de certos serviços; parasita; soldado forte e destemido, que tinha a seu cargo a guarda de algum príncipe.
caciz - sacerdote mourisco em Moçambique; [antigo] vedor ou homem nobre em alguns estados africanos.
cérceo - sem ficar nada pegado (do que se cortou); cortado rente; cerce.
colgadura - tapete, colcha, etc., que se pendura nas paredes ou janelas, para as cobrir ou ornar.
covoada - série de covas.
cris - [antigo] eclipsado; [antigo] eclipse; punhal de origem malaia de lâmina ondulada; escuro ou pardacento = gris.
cubelo - [heráldica] figura de torre quadrada sem ameias; [antigo] torreão entre dois lanços das antigas muralhas; pequeno vaso para líquidos.
devesa - terreno coutado em que há árvores de rendimento e pastos; lugar cercado por arvoredo, souto.
egresso - que saiu, que se afastou; que deixou de fazer parte de uma comunidade; indivíduo que deixou o convento; indivíduo que sai em liberdade depois de cumprir uma pena de prisão; acto ou efeito de sair ou de se afastar.
escorchar - despojar da corcha; esfolar; crestar (colmeias); [figurado] deixar vazio ou nu (roubando ou despojando); maltratar, molestar; arranhar, ferir; estropiar; [Portugal: Trás-os-Montes] tirar a cabeça à sardinha.
esculca - [antigo] sentinela nocturna ou ronda; guarda avançada nos exércitos antigos.
estamenha - tecido grosseiro de lã.
fossado - aberto como fosso; revolvido ou remexido; fosso; [antigo] correria em território inimigo.
fragueiro - que anda pelas fragas arrancando pedra; que trabalha ou anda mourejando pelas serras; que leva vida rude e cansada; [figurado] rude, agreste; independente, infatigável, fogoso; fragoso; aquele que vive trabalhosamente por serras e fragas; relativo a frágua; em que há calor intenso; [regionalismo] pau de vassoura do forno.
gardingo - nobre visigodo que exercia certos cargos na monarquia.
gasalhado - [antigo] roupas de cama, roupas; agasalho, trato; carinho; camarote, beliche.
infanção - antigo título de nobreza inferior ao de rico-homem.
Mafamede - designação de Maomé.
Mafoma - Maomé.
moimento - monumento fúnebre; [por extensão] monumento em honra de alguém; acto de moer; cansaço, prostração.
monteira - barrete de montanhês; [termo venatório] caçadora de monte.
monteiro - guarda de montados, matas, coutadas; [termo venatório] caçador de monte; de monteiro ou da montaria.
nebri - [termo venatório] diz-se do, ou o falcão adestrado para a caça; caparoeiro.
onzeneiro - que ou quem empresta dinheiro a juros altos; que ou quem fabrica intrigas.
precito - [religião] que ou quem está antecipadamente condenado; que ou quem foi sujeito a condenação ou maldição = condenado, maldito, réprobo.
preia - presa.
reixa - tábua pequena; barra de ferro; grade de janela, porta ou varanda; [popular] rixa, raiva.
retouçar - brincar ou andar na retouça ou baloiço; [por extensão] movimentar-se, brincando; [Portugal: Beira, Trás-os-Montes] comer, pastando (falando-se de animais).
saltério - [música] antigo instrumento musical de cordas; [música] instrumento triangular moderno com 13 ordens de cordas; [zoologia] terceira cavidade do estômago dos ruminantes.
santoral - hagiológio; hinário dos santos.
sémel - [antigo] geração, descendência.
tiple - [música] a voz mais alta na consonância musical = soprano; [música] pessoa que tem essa voz; [música] instrumento musical cordofone.
veniaga - mercadoria; tráfico; comércio; [figurado] tranquibérnia, traficância; o mesmo que sinecura.
vílico -  [antigo] espécie de regedor de pequena localidade que arrecadava impostos gerais e administrava justiça; feitor, caseiro.

Thursday, December 11, 2014

O Capote - Nicolau Gogol

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Foi a partir da leitura de Tarass Bulba, do mesmo autor, que chegámos à leitura de "O Capote". No exemplar que lemos, este título surgiu mencionado na nota biográfica e publicitado também nos "já publicados na mesma colecção".

Este é assim o segundo título do autor, que irei ler no âmbito do Linked Books, mas o primeiro em forma de conto, um género que muito aprecio. A minha primeira experiência com o autor, apesar de não ter sido marcante, foi positiva. Não o recomendei directamente, mas proporcionou uma boa  e interessante leitura, e que acabei por dizer aos nossos leitores que não deveriam rejeitar "Tarass Bulba", caso lhes surgisse nos seus percursos de leitura. Por todos estes motivos,  agradou-me a perspectiva desta "tarefa" de leitura que tinha pela frente.

Este exemplar foi adquirido através da plataforma online de trocas de livro WinkingBooks.

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"O Capote é um texto inovador: contribuiu para a “invenção” da cidade “mais fantástica do mundo” (Dostoiévski) sem a qual não teriam sido possíveis as Petersburgos de Dostoiévski, Blok, Andrei Béli, Mandelstam, a Praga de Kafka, a Berlim de Benjamim, etc. A cidade onde os homúnculos frustrados e solitários de Gógol se perdem e perdem o que têm de mais íntimo (o nariz, o juízo, a identidade, o capote). É também um texto inovador na sua forma sacudida, na alternância de estilos contraditórios, nas hipérboles grotescas e, sobretudo, na assunção da artificialidade da coisa escrita, na constante auto-ironia do que vai sendo escrito, criando uma distanciação ou uma ruptura do texto com o real cujo resultado é, contudo, uma estranha verosimilhança, uma aproximação do fantástico ao real (à falta de melhores palavras, um crítico russo chamou-lhe “fantasia sem fantástico”), da vida à morte, do escrito ao vivido. Em minha opinião, neste aspecto Gógol é ainda hoje inimitável.” 
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Regressar a este autor, e descobri-lo agora em forma de conto, foi uma experiência muito agradável. O conto está escrito na perfeição, e num estilo que muito me agrada, à imagem da minha primeira experiência de leitura com este autor, em Tarass Bulba. No entanto, para além desta semelhança e do facto de a trama se passar na Rússia, esta história é  muito diferente da primeira que Gogol me proporcionou.

É um conto muito simples, em que nada de extraordinário acontece, onde não existe nenhum enredo intrincado ou trama original. E o mais surpreendente é que estamos perante um conto extremamente interessante, e que prende o leitor, mesmo à falta de tudo isso.

A história é a do dia-a-dia de um funcionário público, personagem muito "sui generis", obcecado com o seu trabalho e sem qualquer outro prazer na vida senão esse. É a partir deste quase ridículo personagem, que o autor aproveita para satirizar alguns aspectos da sociedade russa da época. Esse trabalho é extremamente bem conseguido, e o resultado é um conto que pode ter inúmeras interpretações, mais uma vez apesar da sua simplicidade de enredo e de linguagem.

Achei notável o trabalho deste autor, e para mim, o único "senão" é a forma como termina o conto. Contudo, após a leitura e reflectindo um pouco sobre alguns desfechos alternativos, julgo ter compreendido alguns motivos para ter sido este o escolhido. É claro que não me vou alongar em relação a este aspecto, para não estragar as futuras leituras que espero que venham a fazer desta obra.

Sem dúvida, um conto de Nicolau Gogol que recomendo.

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Linked books...

A Cidade do Sossego - Nicolau Gogol (ligado inevitavelmente a este título, uma vez que é parte integrante desta edição)

Almas Mortas - Nicolau Gogol (título escolhido entre as obras mencionadas na nota biográfica, por já se encontrar na nossa lista de livros a serem lidos)

Linked places...
São Petersburgo
(Rússia)
Nevsky Prospekt
avenida de São PetersburgoRússia
Linked monuments...
Monumento de Pedro, o Grande (intitulado "O Cavaleiro de Cobre")
(São PetersburgoRússia)
Linked rivers...
Rio Neva (Rússia)
na imagem: pintura de Lev Lagorio intitulada "Moonlight Night Over Neva River"
Linked games...
Whist
Linked objects...
Samovar
Linked looked up words...
esgarçar - rasgar (um tecido) afastando os fios; separar (ramos) da árvore, sem os cortar; desfiar-se, abrir-se o tecido raro.
increpar - repreender asperamente = acusar; dirigir a palavra a (algúem), censurando = censurar; qualificar alguém negativamente.
provecto - adiantado, que tem feito progresso; experimentado; consumado: escritor provecto [figurado]; idade provecta: a velhice.
tudesco - germânico, alemão.

Tuesday, December 2, 2014

A Aventura no Castelo - Enid Blyton

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Após termos lido o primeiro livro da "Série Aventura" da autora, intitulado "A Aventura na Ilha", resolvemos incluir este título nos seus "Linked Books", visto tratar-se da continuação da série, ou seja, do seu número 2.

Não é pois, a primeira vez que Enid Blyton, esta genial autora, surge no âmbito do nosso blogue, tendo já proporcionado leituras agradáveis, quer a mim, quer ao meu colega administrador Alípio Vieira Firmino:
Sabemos já, caso não o soubéssemos das leituras da nossa infância, que a popularidade desta autora não é um mero acaso, mas sim o resultado merecido pela criação de obras de inquestionável qualidade, no âmbito da literatura infanto-juvenil.

Era pois uma expectativa bastante fundamentada, a que tinha antes de ler este título, de que me esperava mais uma agradável leitura, repleta de aventuras e peripécias.

Este exemplar foi obtido através da plataforma de trocas winkingbooks.

Linked synopsis...
(não foi encontrada uma sinopse em português, pelo que para o efeito, recorremos a este resumo da wikipedia)


"Jack, Lucy, Dinah and Philip attempt to figure out what is behind the strange goings-on at a ruined castle near Spring Cottage in Scotland where they are on holiday with Dinah and Philip's mother, Aunt Allie. The four youngsters make friends with Tassie, a mysterious gypsy living in the woods with her mother. Along with Bill Cunningham, who appears later in the book, the children manage to expose a ring of spies led by the threatening Scar-Neck who are working against the UK Military service"
fonte: wikipedia

Linked opinion...
Tal como esperado, Enid Blyton presenteou-me com mais uma magnífica aventura, recheada de peripécias, que me fez relembrar os meus tempos de infância, tempos esses em que "devorava" avidamente os seus livros.

A autora reafirma aqui a sua qualidade como escritora, para além da sua enorme criatividade e imaginação. O texto é interessante e proporciona uma agradável leitura do início ao fim. Apesar de se tratar de leitura infanto-juvenil, dei por mim, à imagem do que me sucedeu quando li o primeiro volume desta série, perfeitamente envolvida na trama e completamente "agarrada" e intrigada em relação ao desenrolar da mesma. Posso mesmo dizer que esta aventura no castelo, na minha opinião, superou até a primeira na ilha.

Regressam os adoráveis personagens da primeira aventura (A Aventura na Ilha), com um acréscimo, ou melhor dois novos personagens que vão integrar o grupo dos aventureiros iniciais. Os aventureiros "reincidentes" não ficam em nada atrás aos personagens mais populares da autora (da séries dos cinco, e dos sete), e os dois "novos", acrescem à história um colorido sem a qual esta aventura não seria a mesma.

Não querendo desvendar pormenores da história, gostaria apenas de voltar a afirmar que me parece que este livro, poderá ser ainda de enorme interesse para os mais novos de hoje, tal como foram para mim, na minha infância. Não deverei andar muito longe da verdade ao fazer esta afirmação, já que verifiquei enquanto pesquisava para este post, que este é um livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura - 5º ano.

Para além do prazer de leitura que poderá proporcionar aos mais novos, também os menos novos e antigos fãs da autora como eu, podem com eles fazer uma agradável viagem ao passado, repleta de recordações. É pois, com enorme satisfação que recomendo este livro, quer a uns, quer a outros.

Linked opinion by other bloggers...

À imagem do que aconteceu na sinopse, também para esta rubrica não encontrei opiniões de bloggers portugueses. Assim sendo, resolvi partilhar convosco algumas opiniões em língua inglesa que encontrei:

Linked books...

Alice no País das Maravilhas - Lewis Carroll

O Livro das Mil e Uma Noites - Antoine Galland (foram mencionados dois contos, que surgem nesta colectânea clássica: "Ali Babá e os 40 Ladrões" e "Aladino")

Linked animals...
Bicha-Cadela
(Forficula Auricularia)
Águia-Real
(Aquila Chrysaetos)
Rouxinol
(Luscinia Megarhynchos)
Carocha
Linked flora...
Bétula
Urze
Tojo
Linked sayings and expressions...

"dar às de vila-diogo" - significa fugir, debandar.

Linked looked up words...
ajoujar - prender dois a dois com ajoujo; oprimir, escravizar [figurado]; unir-se a outra pessoa pondo-se na sua dependência [figurado]
alapardar - esconder em si, alapar [informal]; abaixar-se; ocultar-se para não ser visto.
assestar - apontar.
bulha - ruído confuso, barulho; desordem, rebuliço.
escápula - prego de cabeça revirada.
façanhudo - capaz de fazer façanhas, façanhoso; desordeiro, brigão; carrancudo [informal]
panóplia - armadura completa de cavaleiro; espécie de escudo em que se colocam diferentes armas e que serve de oenato nas paredes [heráldica]; troféu; sala de armas.
peanha - base ou pedestal em que está colocada alguma estátua ou figura; tarima que está na frente do altar e arrimada a ele; banco para descansar os pés; pedal do tear; chaga no casco das bestas causada pela lama.
regougar - diz-se do gritar da raposa.
vetusto - muito velho, antigo; deteriorado pelo tempo; respeitável pela sua ancianidade.

Monday, November 24, 2014

Filoctetes - Sófocles

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Foi a partir de uma outra obra deste autor, que chegamos à leitura de "Filoctetes" de Sófocles. No exemplar de "Rei Édipo" que lemos anteriormente neste blogue, a nota biográfica do autor mencionava várias das suas obras. "Filoctetes" foi o título que escolhemos entre as várias referências, por termos encontrado uma edição disponível em português na Wook.

No entanto, foi na Feira da Ladra, no passado mês de Outubro, que acabei por adquirir o exemplar na foto, que agrega várias das suas obras, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", e onde "Filoctetes" está também incluído.

Esta é já a quarta deste autor, lida no âmbito do Linked Books. Como poderão confirmar ao ler os posts anteriores, todas elas foram muito do meu agrado, e já aqui tenho mencionado como o Linked Books veio despertar em mim uma autêntica paixão por estes clássicos.

Os títulos já lidos de Sófocles foram até ao momento:
Dadas estas minhas anteriores experiências de leitura, antecipei desde cedo que esta seria mais uma experiência memorável, e é sempre com grande entusiasmo, que vejo surgir estes clássicos na nossa lista de livros a serem lidos.

Nota: posteriormente este título ficou também "linkado" a:
Linked synopsis...

"Nesta peça, a mestria dramática de Sófocles reúne três figuras que encarnam questões morais, sociais e educativas – Filoctetes, Ulisses e Neoptólemo; confronto entre os dois primeiros, tentando cada qual aliciar para a sua esfera de influência o terceiro."


fonte: wook.pt

"Filoctetes é uma obra-prima da maturidade de Sófocles, uma tragédia da última década do século V que põe em causa a própria tragédia, a mais moderna de todas as peças gregas na sua austeridade, no seu despojamento, na confiança absoluta na Palavra. A peça que na opinião de mais de um helenista já foi considerada a mais subtil, a mais perfeita e mais comovente de todas as que até nós chegaram do teatro grego."
fonte: wook.pt
Linked opinion...
Mais uma tragédia magnífica de Sófocles. É impossível não sentir como privilégio, o facto de esta obra ter chegado até aos dias de hoje. Segundo o que pesquisei, foram apenas sete os textos que "sobreviveram" de entre as mais de 125 obras do autor. Esta foi a quarta que li, e foi a quarta que adorei.

No entanto, momentos após terminá-la, senti que esta tragédia não era bem como as anteriores, mas não consegui identificar de imediato por que motivo isso tinha acontecido. Na altura, lembro-me de pensar que a história parecia incompleta. Apesar de ter um princípio e um fim bem definidos, era como se se tratasse de uma sub-história, dentro de uma narrativa maior, como se fosse um capítulo de um livro, ou um dos livros de uma trilogia, tão frequentes na época. A minha pesquisa levou-me a concluir que não há nada que indicie que esta obra seja parte de qualquer outra, pelo que foi necessário reflectir melhor sobre o que tinha lido, e sobre o porquê desta sensação de "diferença" em relação ao que já tinha lido do autor.

Foi só após alguma reflexão que chego às seguintes hipóteses explicativas sobre esta "diferença" por mim sentida:
  • Esta tragédia não contém os "ingredientes" usuais das tragédias de Sófocles anteriormente lidas. É uma narrativa de natureza mais subtil, sem os acontecimentos "fortes" e "trágicos", que "abalam" o leitor.
  • O texto termina, pelo uso do artifício Deus Ex Machina, ou seja, pela intervenção de um Deus, neste caso o semideus Héracles, que irá ditar a conclusão da história. Apesar de ser de enorme interesse literário a utilização deste artifício nos dramas, não posso dizer que me agrade muito quando as histórias terminam desta forma. E neste caso específico, não me parece que fosse forçosamente necessária esta intervenção divina no final.
Não sei se estas minhas duas constatações são suficientes para identificar a "diferença" nesta tragédia, mas devo dizer que ser diferente não foi neste caso algo mau. Esta história é realmente diferente, mais subtil, menos completa, com um final não surpreendente, mas não deixa de ser formidável, e belíssimamente bem contada. Acho sempre extraordinário quando este autores promovem a reflexão sobre temas tão complexos com uma aparente parcimónia de escrita e de enredos.
Basicamente, está um homem abandonado numa ilha, doente (Filoctetes), que é possuidor de uma arma dos deuses (um arco, de Héracles), que Ulisses necessita para conseguir tomar Tróia. Para tal faz-se acompanhar de Neoptólemo, filho de Aquiles, para conseguir ganhar a sua simpatia e confiança. Mas para melhor falar deste enredo, gostaria de o fazer a partir dos seus três personagens principais.

Ulisses é um deles. Um personagem meu "conhecido" da Odisseia, apresenta-se aqui de uma forma um pouco diferente da sua típica imagem de "herói". Ele que foi um dos responsáveis pelo abandono de Filoctetes naquela ilha, por já não poderem suportar os lamentos de dor do doente, nem o cheiro nauseabundo da sua ferida, volta agora para tentar convencê-lo a entregar-lhe o arco de Héracles. Para tal, tenta convencer Neoptólemo a ajudá-lo, uma vez que este é filho de um amigo de Filoctetes (Aquiles). Mas este "serviço" que Ulisses pede a Neoptólemo, não é de natureza nobre, antes pelo contrário. Ulisses deseja que ele engane Filoctetes, por forma a que este entregue o seu arco invencível. É pois, um Ulisses ardiloso que nos surge neste tragédia, convencido (e não há quem o demova desta convicção) de que os meios justificam os fins. Este é o primeiro motivo para reflexão que Sófocles nos concede no seu texto.

Filoctetes, o homem abandonado naquela ilha, vive em grande dor e agonia. Sofre um mal no seu pé, por antigo perjúrio cometido ao revelar o local onde repousavam as cinzas de Héracles. A dor do abandono pelos companheiros concorre com a dor física do mal incurável e quase insuportável. Jurou-se inimigo mortal daqueles que o haviam enganado, e por nada entregaria o seu arco àqueles que o traíram. O relato do sofrimento deste homem é um dos pontos altos desta tragédia, e mais um motivo para reflexão.

Neoptólemo encarna a questão central deste enredo. Dividido entre duas posições irredutíveis, a de Ulisses e a de Filoctetes, não tem uma tarefa fácil. Entre enganar alguém que mereceu a amizade de seu pai, e retirar a esse homem já em grande sofrimento o seu único bem ( o arco ) , a fim de que Tróia seja finalmente tomada, ou recusar-se a prestar esse "serviço" a Ulisses, e tornar-se ele próprio um traidor. Com pouca margem de manobra, este jovem vê-se assim perante este grave dilema, e seja qual for a sua decisão, acarretará para si próprio graves consequências, as quais terá que enfrentar. Se os outros pontos de reflexão não tivessem tocado o leitor, aqui sem dúvida quem lê é obrigado a reflectir sobre este dilema que aflige um dos seus principais personagens.

Resumindo, apesar de um pouco diferente do que já havia lido do autor, é uma tragédia excelente, e mais uma vez recomendo este livro, à imagem do que aconteceu com as suas outras obras.

Linked opinions by other bloggers...
Linked books...

A Ilíada - Homero (obra mencionada no prefácio, e para além dessa referência, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo Pátroclo, Menelau, Nestor, Fénix, Ájax, Diómedes e Agamemnon)

A Odisseia  - Homero (obra mencionada no prefácio e nas notas, e para além dessas referências, vários dos seus personagens foram mencionados no texto, como por exemplo, Menelau, Nestor, e Agamemnon)

Eneida - Virgílio (obra mencionada nas notas)

Este exemplar que lemos, intitulado "Tragédias do Ciclo Troiano", não contém apenas a obra "Filoctetes" que neste post abordamos. Outros três títulos de Sófocles compõem este edição pelo que a ligação entre eles é inevitável:
Electra - Sófocles
Os Rastejadores - Sófocles

Linked places...
Ciros
(ilha grega no mar Egeu, pátria de Neoptólemo, um dos protagonistas desta tragédia)
Lemnos
(ilha grega onde decorre a acção desta tragédia)

Cefalénia
antigo thema (província civil-militar) bizantino localizado na Grécia ocidental e que abrangia as Ilhas Jónicas 
Pepareto
ilha do Mar Egeu, hoje conhecida por Escópelos (Grécia)
Eta
montanha da Tessália, no sul da Grécia Central
Esparta
antiga pólis da Gécia Antiga
Micenas
sítio arqueológico na Grécia
Linked rivers...
Rio Espérquio (Grécia)
Rio Pactolo (Turquia)
rio do antigo estado da Lídia
Linked greek gods and demigods...
Hermes
(deus olímpico, filho de Zeus e de Maia, deus da fertilidade, dos rebanhos, da magia, da divinação, das estradas e viagens)
Atena
(conhecida também por Palas Atena, deusa da guerra, da civilização, da sabedoria, da estratégia em batalha, das artes, da justiça e da habilidade)
Héracles
(semi-deus, filho de Zeus e Alcmena, herói dotado de grande força e sagacidade, tornado célebre sobre o nome de Hércules)
Asclépio
(deus da medicina e da cura)
Apolo
(deus olímpico, filho de Zeus e Leto, deus da divina distância, identificado como o sol, e a luz da verdade)
Hades
(deus do mundo inferior e dos mortos)
na imagem: Hades e Cérberus
Cibele
deusa mãe, simbolizava a fertilidade da natureza
(foi mencionada nas notas, e não no texto da tragédia)
Centauro Nesso(foi mencionado nas notas, e não no texto da tragédia)
na imagem: Héracles e Nesso
Linked mythological mortals...
Laertes, pai de Ulisses
(escultura onde estão ambos representados)

Peias
Rei da Melibeia, pai de Filoctetes (protagonista nesta tragédia)

nota: não conseguimos obter qualquer imagem de Peias
Sísifo
(filho do rei Éolo, da Tessália, e considerado o mais astuto de todos os mortais)
na imagem: "Sisyphus" do pintor italiano Titian
Teucro
(herói da mitologia grega, especializado no uso do arco)
na imagem: "Statue of Teucer" por Sir William Hamo Thornycroft
Térsites
combatente grego na Guerra de Tróia, anti-herói, feio, coxo, mentiroso, e imprudente com as palavras. Acabou por ser morto por Aquiles por dele ter zombado.
na imagem à esquerda com a tocha (pintura de Angelica Kauffman, datada de 1789)
Antíloco
filho de Nestor, acompanhou seu pai na Guerra de Tróia
Pátroclo e Menelau
Pátroclo era filho de Menécio, primo e por vezes considerado amante de Aquiles, combatente na Guerra de Tróia. Menelau foi um rei lendário da Lacedemónia, o rapto de sua mulher Helena, deu origem à Guerra de Tróia.
na imagem:  Menelau apoiando o corpo de 
Pátroclo
Nestor
 rei de Pilos, e argonauta 
Fénix
perceptor de Aquiles
na imagem: Fénix e Briseis
Ájax
frequentemente referido como Ájax, O Grande, foi um dos participantes na Guerra de Tróia
Diomedes
filho de Tideu, e um dos mais valentes herói da Guerra de Tróia
Agamémnone
distinto herói grego, e irmão de Menelau
na imagem: "The Mask of Agamemnon", decoberta em Micenas
Licomedes
Rei de Ciros, e avô de Neoptólemo (um dos protagonistas desta tragédia)

na imagem: Aquiles na corte do rei Licomedes
Linked looked up words...
crono - periodo de tempo que cada terreno levou a formar-se [geologia].
éneo - de bronze, feito de bronze; duro como o bronze [figurado].
ignífero - que traz fogo; que arroja fogo.
jucundo - que é agradável, aprazível; que demonstra alegria, jovialidade.
opróbrio - desonra pública; afronta muito grave; abjecção extrema.
outiva - faculdade de ouvir (audição, ouvido); acto de ouvir.
solércia - astúcia; habilidade para enganar; velhacaria; finura; esperteza.
tonante - que troveja; vibrante, forte [figurado]; epíteto dado a Júpiter [linguagem poética e mitologia].
transe - duelo, combate.